The poetry of João do Vale

A poesia de João do Vale

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Atualizada em 11 abr 2002

 

 

POESIA

- Estrela Miúda
- Pisa na Fulô
- Carcará

A voz do povo -
Peba na pimenta -
Sina de caboclo -


Estrela Miúda
Luiz Viera / João do Vale

Estrela miúda que alumeia o mar
Alumiar terra e mar
Pra meu bem vem me buscar
Há mais de mês que ela não
Que ela não vem me olhar

A garça perdeu a pena
Ao passar no igarapé
Eu também perdi meu lenço
Atrás de quem não me quer
Estrela miúda que alumeia o mar
Alumiar terra e mar
Pra meu bem vem me buscar
Há mais de mês que ela não
Que ela não vem me olhar

A onda quebrou na praia
E voltou a correr no mar
Meu amor foi como a onda
E não voltou pra me beijar.

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Pisa na Fulô
João do Vale, Silveira Júnior e Ernesto Pires

Pisa na fulô, pisa na fulô
Pisa na fulô, não maltrata meu amô

Um dia desse fui dançá lá em Pedreira
Na rua da Golada e gostei da brincadeira
Zé Caxangá era o tocado
Mas só tocava pisa na fulô

Sô Serafim cuchichava a Marvió
Sô capaz de jurá que eu nunca vi forró miól
Inté vovó garrô na mão de vovô
Vão'bora, meu veinho, pisa na fulô

Eu vi menina qui nem tinha doze ano
Agarrá seu par, também sair dançando
Satisfeita e dizendo
Meu amô, ai como é gostoso pisa na fulô

De madrugada Zeca Caxangá
Disse ao dono da casa
Num precisa me pagá
Mas por favô, arranje outro tocadô
Que eu também quero pisa na fulô

Vem cá, menina, que eu também quero
Que eu também vou pisa na fulô
Pisa na fulô, não maltrata meu amô.

 


Carcará
Zélia Barbosa/João do Vale/José Cândido

Gloria a Deus, Senhor nas alturas
e viva eu de amargura
nas terras do meu senhor ...

Carcará pega, mata e come
carcará não vai morrer de fome.
Carcará, mais coragem do que homem.
Carcará pega, mata e come !

Carcará, lá no sertão
e um bicho que avoa que nem avião.
É um pássaro malvado,
tem o bico volteado que nem gavião

Carcará quando vê roça queimada
sai voando e cantando :
carcará vai fazer sua caçada,
carcará come inté cobra queimada !

Quando chega o tempo da invernada
No sertão não tem mais roça queimada.
Carcará mesmo assim não passa fome.
Os borregos que nasce na baixada...

Carcará pega, mata e come ...

Carcará é malvado, é valentão,
e a águia de lá do meu sertão.
Os borrego novinho não pode andá :
Ele puxa no imbigo até matá.

Carcará pega, mata e come ...

 




A Voz do Povo
João do Vale
Meu samba é a voz do povo
Se alguém gostou
Eu posso cantar de novo
Eu fui pedir aumento ao patrão
Fui piorar minha situação
O meu nome foi pra lista
Na mesma hora
Dos que iam ser mandados embora
Eu sou a flô que o vento jogou no chão
Mas ficou um galho
Pra outra flô brotar
A minha flô o vento pode levar
Mas o meu perfume fica boiando no ar.

Peba na Pimenta
João do Vale, José Batista e Adelino Rivera
Seu Malaquia preparou
Cinco peba na pimenta
Só do povo de Campinas
Seu Malaquia convidou mais de quarenta
Entre todos os convidados
Pra comer peba foi também Maria Benta
Benta foi logo dizendo
Se ardê, num quero não
Seu Malaquia então lhe disse
Pode comê sem susto
Pimentão não arde não
Benta começou a comê
A pimenta era da braba
Danou-se a ardê
Ela chorava, se maldizia
Se eu soubesse, desse peba não comia
Ai, ai, ai seu Malaquia
Ai, ai, você disse que não ardia
Ai, ai, tá ardendo pra daná
Ai, ai, tá me dando uma agonia
Ai, ai, que tá bom eu sei que tá
Ai, ai, mas tá fazendo uma arrelia
Depois houve arrasta-pé
O forró tava esquentando
O sanfoneiro então me disse
Tem gente aí que tá dançando soluçando
Procurei pra ver quem era
Pois não era Benta
Que inda estava reclamando?
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Sina do caboclo
Zélia Barbosa/João do Vale/J.B. de Aquino
Mas plantar prá dividir
Não faço mais isso, não.
Eu sou um pobre caboclo,
Ganho a vida na enxada.
O que eu colho é dividido
Com quem não planta nada.
Se assim continuar
vou deixar o meu sertão,
mesmos os olhos cheios d'água
e com dor no coração.
Vou pró Rio carregar massas
prós pedreiros em construção.
Deus até está ajudando :
está chovendo no sertão !
Mas plantar ...
Quer ver eu bater enxada no chão,
com força, coragem , com satisfação ?
e só me dar terra prá ver como é :
eu planto feijão, arroz e café ;
vai ser bom prá mim e bom pró doutor.
eu mando feijão, ele manda tractor .
vocês vai ver o que é produção !
modéstia á parte, eu bato no peito :
eu sou bom lavrador !
Mas plantar ...




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José Roberto Miccoli
mikkolee@uol.com.br